O Chefe Atual é o Culpado? Ideias para se pensar.
- Ticiane Trindade Lo

- há 12 minutos
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Não é de hoje que o debate sobre a saúde mental no trabalho ganhou força. O impacto da Pandemia de 2020, o avanço tecnológico avassalador e a perda total do nosso direito à desconexão trouxeram o tema das doenças psíquicas ocupacionais para o centro das atenções, algo impulsionado até pelas recentes atualizações da NR-1.
Mas, se olharmos de perto, a raiz desse problema pode ser muito mais profunda do que o seu emprego atual.
Você é Vítima ou Algoz de Si Mesmo?
O filósofo Byung-Chul Han, em sua célebre obra Sociedade do Cansaço, defende que a sociedade atual vem moldando indivíduos de alto desempenho baseados em uma cobrança interna, particular e personalíssima.
Em outras palavras: hoje, nós somos as vítimas e os algozes de nós mesmos.
Isso marca uma ruptura drástica com a era Fordista. No século XX, na chamada Sociedade Disciplinar de Michel Foucault, o cansaço vinha de uma força externa: a fábrica, o relógio de ponto, o chefe inflexível. O lema era o dever (“você deve”).
Hoje, na era do Neoliberalismo e do "Empreendedor de Si", o lema passou a ser o poder (“você pode tudo”), transformando a autoexigência em um estilo de vida invisível.
O Escritório que Mora no Seu Bolso
Essa engrenagem começou a acelerar nos anos 1990. Com a globalização e o mercado hiperconectado, passamos a ser cobrados para sermos “multitarefas”. A concorrência já não era mais com o colega da mesa ao lado, mas com o mundo.
Nos anos 2000, a revolução digital eliminou de vez a fronteira entre a vida profissional e a pessoal. O escritório passou a habitar o seu bolso, a sua sala e até o seu quarto. O tempo livre virou tempo produtivo em potencial.
E o detalhe mais cruel: muitas vezes, você responde àquela mensagem fora do horário não por imposição direta da empresa, mas porque já foi condicionado a buscar o autodesempenho a qualquer custo.
O Corpo Não É Uma Máquina
Como não somos feitos de engrenagens e códigos, uma hora ou outra o corpo cobra a conta. As dores físicas e psíquicas começam a gritar por socorro.
Nesse momento de crise, é natural buscarmos um culpado imediato. E aí vem a pergunta de ouro: será que é o "AGORA" a verdadeira causa da sua dor? O culpado é o chefe atual? O emprego atual?
Ou será que este adoecimento é o resultado acumulado de décadas vividas em completo desequilíbrio e desarmonia?
A Crise do Meio e o Despertar
No livro WHEN?, o autor Daniel Pink transforma o timing — aquilo que achamos que é sorte ou intuição — em uma ciência exata. Ele analisa a "Crise do Meio": quando atingimos a metade de um projeto, de um jogo ou da própria vida, tendemos a seguir um de dois caminhos:
Desanimamos completamente (a queda do meio);
Despertamos um senso de urgência avassalador.
O psicanalista Carl Jung também explorou esses picos da vida ao falar sobre o processo de individuação e as autossabotagens. Sofrer e sentir o peso das escolhas nesses momentos de transição não é incomum; é parte do amadurecimento humano.
Uma idéia para reflexão
O esgotamento que você sente hoje pode não estar diretamente ligado ao seu momento presente. Ele costuma ser o resultado de uma cadeia de atitudes, escolhas e vivências acumuladas ao longo dos anos no seu "baú particular".
Esse baú funciona como uma verdadeira Caixa de Pandora. Mas, diferentemente do mito grego, abrir esse baú e encarar o que está ali dentro é o único caminho para uma verdadeira renovação pessoal e interna.
Diante desse processo inevitável de transição, a pergunta que fica para você refletir é: Como você escolherá passar por isso?
Vai ceder ao desabrochar e, como uma semente que rasga a escuridão da terra em busca do sol, transformar-se em flor, ou vai resistir ao processo e virar um piruá de milho no estourar da pipoca?



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